quinta-feira, 22 de março de 2012

A Via-Sacra não é uma devoção triste

A Via-Sacra não é uma devoção triste. Muitas vezes ensinou Mons. Escrivá de Balaguer que a alegria cristã tem as suas raízes em forma de cruz. Se a Paixão de Cristo é caminho de dor, também é a rota da esperança e da vitória certa.” (D. Álvaro del Portillo, Prólogo do livro Via Sacra, de S. Josemaria)
A Via-Sacra consiste em considerar 14 momentos do caminho de Jesus para o Calvário, na primeira Sexta-feira Santa, a fim de meditar os sofrimentos de Jesus Cristo e unir-se interiormente a Ele. S. Josemaria tinha muita devoção a esta prática de piedade, como D. Javier Echevarría lembra nestes excertos que apresentamos:


Tinha devoção pela Via-Sacra. Pareceu-nos muito lógico que um ano, por ocasião da festa da Epifania, pedisse como presente uma Via-Sacra portátil, com a finalidade de tê-la à mão e poder contemplar essas cenas da Paixão que tanto amava.

Rezei muitas vezes as estações com ele - também estava presente o Pe. Álvaro del Portillo , e pude observar a piedade com que se ajoelhava depois da enunciação de cada uma. Costumava considerar essas cenas a caminho do Calvário todas as sextas-feiras, e de modo muito particular nos dias da Quaresma.

Incitava-nos a ter na nossa mente, como num filme, aqueles momentos em que se cumpre a salvação da humanidade: de maneira que em qualquer conjuntura nos pudéssemos meter na cena como uma personagem mais, para nos arrependermos das nossas faltas, para acompanhar Jesus, para sentir a obrigação de ser co-redentores.

No dia 14 de Setembro de 1969, quando nos mostrava – cheio de sumo respeito um relicário da Santa Cruz, falou longamente da Paixão e Morte de Nosso Senhor. Respigarei uns parágrafos daquela conversa: «nós amamos – devemos amar – sinceramente a Cruz, porque onde está a Cruz está Cristo com o seu Amor, com a sua presença que enche tudo… Por isso, filhos meus, com o espírito da Obra, jamais podemos fugir da Cruz, desta Santa Cruz, na qual se encontra a paz, a alegria,a serenidade, a fortaleza… Neste relicário que conservamos aqui, venera-se um fragmento do Lignum Crucis que se guarda em São Toríbio de Liébana. Ofereceu-mo há muitíssimos anos o Bispo de Leão. A mim incomoda-me que se fale da Cruz como sinónimo de contradição, de mortificação. A Cruz é algo positivo, desde que Deus quis entregar-nos a verdadeira vida por meio da Cruz… Depois de nos darem a bênção, vamos beijar a Cruz, mas dizendo sinceramente que a amamos, porque já não vemos na Cruz o que nos custa ou o que nos possa custar, mas a alegria de nos podermos dar, despojando-nos de tudo para encontrar todo o amor de Deus… Por baixo deste relicário mandei pôr: judaeis quidam scandalum, gentibus autem stultiam! [“escândalo para os judeus e loucura para os gentios: 1 Coríntios 1, 23], porque para os incapazes, a Cruz é escandalosa e incompreensível».

Em 1970, incitava-nos: «só se nos unirmos continuamente à Paixão de Jesus Cristo, saberemos ser instrumentos úteis na terra, ainda que estejamos cheios de misérias». É impossível esgotar as múltiplas e numerosíssimas considerações que fez; mas penso que, de algum modo, resume a sua união ao Sacrifício da Cruz o que lhe ouvi na Semana Santa daquele ano: «A Paixão do Senhor: dela nos vem toda a força. Quando penso na Paixão de Jesus Cristo, vem-me logo à cabeção que fiz eu nestes quarenta anos e dois anos da minha vida no Opus Dei, e naqueles outros em que Ele me preparava antes de começar. E vejo-me nada, e menos que nada: só fui um estorvo. Por isso, cada dia sinto a necessidade de me fazer pequeno, muito pequeno nas mão de Deus. Deste modo me consolo com o que escrevi tantas vezes: que faz uma criança? Entrega ao seu pai um soldado sem cabeça, um carrinho velho, um berlinde vidro. Pois eu também: o pouco que tenho quero dá-lo inteiramente e de verdade. Assim, a minha pequenez, fundida com a Paixão de Cristo, tem toda a eficácia redentora e salvadora: nada se perde!»

Do livro: Lembrando o Beato Josemaria Escrivá, de Javier Echevarría e Salvador Bernal, Lisboa, 2000

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