segunda-feira, 24 de setembro de 2012
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Audiência de Bento XVI aos directores nacionais das Pontifícias Obras missionárias
A mensagem de Cristo
é profecia e libertação
Encorajado o projecto de uma campanha mundial de oração para a evangelização do mundo
A mensagem de Cristo não pode adaptar-se à lógica do mundo, «porque é profecia e libertação, é semente de uma humanidade nova que cresce e só no fim dos tempos alcançará a sua plena realização». Assim Bento XVI – depois de ter recordado padre Massimo Cenci,
subsecretário da Congregação para a Evangelização dos Povos, falecido repentinamente em Roma na madrugada de sexta-feira 11 de Maio – evocou o sentido profundo da evangelização. Fê-lo, dirigindo-se aos directores nacionais das Pontifícias Obras Missionárias, recebidos em audiência na manhã de hoje, sexta-feira 11, na Sala Clementina.
Tanto hoje como ontem, disse em síntese o Pontífice, a missão tem índole de urgência, e «nestes tempos impele a Igreja a agir com um passo ainda mais apressado pelos caminhos do mundo, para levar todo o homem ao conhecimento de Cristo», não obstante isto comporte dificuldades e sofrimentos. O Papa dirigiu o pensamento aos mártires de todos os tempos, em particular a quantos ainda hoje continuam a derramar o seu sangue pelo anúncio. «Nesta fase de mudanças económicas, culturais e políticas – disse a propósito – onde muitas vezes o ser humano se sente só, à mercê da angústia e do desespero, os mensageiros do Evangelho, embora sejam anunciadores de esperança e de paz, continuam a ser perseguidos». Portanto, há necessidade da oração que sustente a missão hoje. Uma oração «mais intensa» para invocar a luz e a força do Espírito Santo, necessárias para sustentar quantos se comprometem «com decisão e generosidade para inaugurar, num certo sentido, uma nova era de anúncio do Evangelho».
Precisamente por este motivo, o Papa quis encorajar o projecto da Congregação para a Evangelização dos Povos e das Pontifícias Obras Missionárias, de apoiar a celebração do Ano da fé com uma campanha mundial que, através da recitação do rosário, acompanhe «a obra de evangelização no mundo» e «a redescoberta e o aprofundamento da fé por parte de muitos baptizados».
A canonização equipolente de Hildegarda de Bingen
Uma grande intelectual
Finalmente Hildegarda de Bingen foi proclamada santa pela Igreja depois de séculos nos quais, a partir do momento da sua morte, foi venerada como tal, em particular no âmbito da ordem beneditina à qual pertencia. A sua figura majestosa e complexa destaca-se no panorama de uma época atormentada como foi o século XII, no qual a sua presença sábia e profética desempenhou um papel de grande importância, certamente inédito para uma mulhere.
Estimulou os papas à reforma, criticando-os até com severidade, explicando que o Espírito Santo falava através dela – uma mulher – porque a Igreja, guiada por homens, sob muitos aspectos, tinha traído a sua natureza e missão.
Na sua visão profética, realidade humana e realidade divina são uma mesma realidade, garantida pelo amor, que a mulher sabe personificar. Ela via e descrevia Deus como uma «luz viva», uma luz que faz parte também do ser humano: ela definia-se a si mesma «sombra da luz viva».
Portanto, não nos devemos surpreender que a historiografia e a teologia feminista se tenham debruçado com muita dedicação sobre a redescoberta desta personagem, e que os Cds das suas músicas – Hildegarda era também uma boa compositora de música sacra – se encontrem nas livrarias e não só nas religiosas de meio mundo. A mística renana é a prova de que no âmbito da cultura cristã era possível para uma mulher – evidentemente excepcional – produzir cultura elevada e fazer-se ouvir pelos poderosos. Bento XVI nas catequeses sobre as figuras femininas da Idade Média dedicou-lhe duas reflexões, e tomou como referência precisamente Hildegarda para declarar que «a teologia pode receber uma contribuição peculiar das mulheres, porque elas são capazes de falar de Deus e dos mistérios da fé com a sua inteligência e sensibilidade características».
Por conseguinte a canonização por equipolência proclamada hoje vem confirmar a relevância que ele atribui a esta mulher, que uniu às qualidades da mística as de verdadeira intelectual do seu tempo. Excepcional a tal ponto que, para encontrar uma figura tão rica sob o ponto de vista intelectual – com excepção das duas grandes Teresas, mestras do discurso místico – devemos recordar outra santa alemã, Edith Stein.
Lucetta Scaraffia
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Durante a audiência geral Bento XVI fala da libertação do apóstolo da prisão
Pedro confia em Deus
Também eu me senti sempre amparado pela oração da Igreja
Tranquilidade e confiança: a atitude de são Pedro durante o aprisionamento é a de quem «confia em Deus, sabe que está circundado pela solidariedade e pela oração dos seus e abandona-se totalmente nas mãos do Senhor». Disse o Papa na audiência geral de quarta-feira 9 de Maio,
na praça de São Pedro, falando do aprisionamento e da libertação do apóstolo na vigília do seu processo em Jerusalém.
O Pontífice repropôs a narração do último episódio da vida de Pedro, descrito no capítulo 12 dos Actos dos Apóstolos, para frisar mais uma vez «a força da oração incessante da Igreja», graças à qual o Senhor «realiza uma libertação impensável e inesperada, enviando o seu Anjo». Por seu lado, Pedro «vive a noite do aprisionamento e da libertação da prisão como um momento do seu seguimento do Senhor, que vence as trevas da noite e liberta da escravidão das correntes e do perigo da morte».
A atitude do apóstolo ainda hoje serve de exemplo para a Igreja e para cada cristão, inclusive para o Papa, que confessou aos fiéis presentes na audiência que sempre «se sentiu amparado pela oração» deles, «pela oração da Igreja, sobretudo nos momentos mais difíceis». Palavras acompanhadas por um longo aplauso, ao qual Bento XVI respondeu simplesmente: «Agradeço de coração».
O Regina Caeli de Bento XVI
Como ramos unidos à videira
Como ramos unidos à videira: com esta imagem evangélica o Papa descreveu a tarefa que compete aos cristãos em virtude do Baptismo.
«É indispensável – recomendou aos fiéis presentes na praça de São Pedro na manhã de domingo, 6 de Maio, para a recitação do Regina Caeli – permanecer sempre unidos a Jesus, depender d'Ele, porque sem Ele nada podemos fazer». Cada crente, explicou, «é como um ramo, que só vive se fizer crescer todos os dias na oração, na participação nos Sacramentos, na caridade, a sua união com o Senhor».
Durante a oração mariana Bento XVI dirigiu também um pensamento aos organizadores do Encontro mundial das famílias, em programa daqui por um mês em Milão, e aos membros da associação Meter, que se ocupa das crianças vítimas de violência. Por fim, saudou os novos recrutas da Guarda Suíça Pontifícia - que prestaram juramento durante a tradicional cerimónia realizada durante a manhã na Sala Paulo VI – aos quais dirigiu um discurso durante a audiência que lhes concedeu na manhã de segunda-feira, 7 de Maio, na Sala Clementina.
Da solidezda relação pessoal de amor entre Cristo e o homem o Pontífice fala também na carta enviada a monsenhor Robert Zollisch, arcebispo de Freiburg e presidente da Conferência episcopal alemã, a propósito da tradução em alemão das palavras «pro multis» nas orações eucarísticas da missa.
domingo, 6 de maio de 2012
Bento XVI a um grupo de bispos dos Estados Unidos em visita «ad limina Apostolorum»
Para o futuro da sociedade
jovens formados na fé
jovens formados na fé
A contribuição que as instituições educativas católicas podem oferecer para a construção de «uma sociedade cada vez mais firmemente radicada num humanismo autêntico», foi realçada pelo Papa no discurso dirigido a um grupo de bispos dos Estados Unidos da América, recebidos em audiência na manhã de sábado, 5 de Maio, por ocasião da visita ad limina Apostolorum.
O Papa chamou também a atenção para a necessidade de manter firme a identidade católica destas instituições, «na fidelidade aos próprios ideais fundadores e à missão da Igreja no serviço ao Evangelho». Uma questão sobre a qual, afirmou, «há ainda muito a fazer». Eis por que a advertência a não alimentar desarmonia entre representantes das instituições católicas e «a guia pastoral da Igreja»: tais divergências «danificam o testemunho da Igreja» e facilmente podem ser usadas para comprometer a sua autoridade e liberdade».
Contudo, para Bento XVI a educação dos jovens na fé representa «o desafio mais urgente» que os católicos norte-americanos devem enfrentar. E a este propósito o Papa exortou a ter em consideração a exigência de «formar os corações», assim como de «transmitir conhecimentos», e de encorajar os estudantes a alcançar «uma visão da harmonia entre fé e razão capaz de guiar uma busca do conhecimento e da virtude que permaneça para sempre». Para concluir, não é suficiente garantir só o ensino da religião ou a presença de uma capelania num instituto: são necessários, da parte dos professores, uma autêntica «paixão intelectual» e um compromisso para integrar fé e vida numa «unidade fundamental».
http://www.osservatoreromano.va
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A visita do Papa à sede romana da Universidade Católica do Sagrado Coração
Sem amor
a ciência perde a sua humanidade
Só o amor garante a nobreza e a humanidade da ciência, protegendo-a do risco do relativismo que enfraquece o pensamento e ofusca os valores éticos. Afirmou Bento XVI durante a visita realizada na manhã de quinta-feria, 3 de Maio, à sede romana da Universidade Católica do Sagrado Coração por ocasião do cinquentenário da fundação da faculdade de medicina e cirurgia da policlínica Agostino Gemelli.
Missão nobre e comprometedora, que o Pontífice descreveu a partir da afirmação que «a investigação científica e a procura de sentido, mesmo se na específica fisionomia epistemológica e metodológica, jorram de uma única fonte, aquele Logos que preside à obra da criação e guia a inteligência da história». Compreende-se por isso a necessidade de que «a cultura redescubra o vigor do significado e o dinamismo da transcendência»: numa palavra, «abra com decisão o horizonte do quaerere Deum», a partir da consciência de que «o próprio impulso da pesquisa científica surge da sede de Deus que habita no coração humano».
Por conseguinte, a fim de restituir à razão a sua dimensão integral, ciência e fé devem recuperar a sua «reciprocidade fecunda» e tornar-se assim as duas «asas» das quais a pesquisa tira impulso e estímulo. Uma tarefa hoje particularmente urgente, sobretudo para evitar que a formação académica se feche à dimensão transcendente e deixe espaço a um horizonte meramente produtivo e utilitarista. Com efeito, a perspectiva da fé «é interior – não sobreposta nem justaposta – à pesquisa talentosa e tenaz do saber».
Neste sentido, a faculdade católica de medicina – recordou Bento XVI na conclusão – está chamada a ser o «lugar onde o humanismo transcendente não é slogan retórico, mas regra vivida da dedicação quotidiana».
sábado, 28 de abril de 2012
Seminário em Roma na vigília da beatificação
Leigos cristãos
na escola de Giuseppe Toniolo
na escola de Giuseppe Toniolo
Papa declara José Toniolo beato!
Fidelidade à história
e desejo de Deus
e desejo de Deus
A beatificação de José Toniolo (1845-1918) é um evento de extraordinária importância para o catolicismo italiano; e não só. Um pai de família, um professor universitário, um militante católico elevado às honras dos altares: um caminho iniciado em 1933 nos âmbitos da Federação Universitária Católica Italiana.
Portanto, um exemplo da Acção Católica, que em Toniolo indicou o modelo de um leigo efectivamente empenhado na cidade secular, em constante e contínua comunhão com a hierarquia.
Mas Toniolo supera e ultrapassa as pertenças de grupo. Também naquela época o mundo católico era constituído, às vezes dividido, por almas diversas frequentemente em aberta competição, entre a intransigência rígida da Obra dos Congressos de Giovanni Battista Paganuzzi e as impaciências inovadoras dos jovens que mordiam o freio, e em muitos casos, acabavam por desembarcar no murrismo mais exasperado e idealmente à deriva modernista. Consciente dos perigos e dos riscos de ambas as posições, Toniolo fez tudo para promover e animar, na caridade, um diálogo franco e sincero entre as partes, permanecendo indefectivelmente fiel à Igreja e aos seus bispos.
Toniolo quis viver em comunhão com os pastores da Igreja, dos quais com frequência era amigo e colaborar; não para se proteger de possíveis lampejos mas para se movimentar num ambiente vital e na garantia da verdade. Depois, quem sumariamente ler as suas cartas dar-se-á conta da vida intensíssima deste intelectual, deste académico, que não se cansou de atravessar a Itália e a Europa para apoiar a causa católica com todos os meios possíveis. E que à custa de viagens cansativas, inclusive nocturnas, nunca faltava às suas aulas universitárias em Pisa, para não deixar de cumprir os deveres para com o Estado e os estudantes. Toniolo cultivou inúmeras virtudes eminentemente. Mas evitemos de difundir o seu santinho, como as circunstâncias induziriam a fazer, porque a realidade é mais bonita do que a representação hagiográfica que, com os seus clichês, muitas vezes acaba por afastar em vez de aproximar. Quem puder, leia os testemunhos da Positio pisana e dar-se-á conta de quanta humanidade extraordinária é capaz, na concretude da quotidianidade, uma vida totalmente imersa na fé.
E no entanto, a figura de Toniolo foi removida da memória. Os representantes do catolicismo democrático recordaram-no até à geração de Alcide De Gasperi e, imediatamente em seguida, entre os mais jovens, de Amintore Fanfani, que cresceu na Universidade Católica de Agostino Gemelli, que a Toniolo devia boa parte da sua inspiração. Mas depois deles veio o dilúvio do esquecimento, como se a crise do Estado liberal, o fascismo e a guerra mundial tivessem cancelado o perfil de um vulto reduzindo-o a uma imagem esvaecida, mais que ofuscada, sobre um muro gasto pelo tempo. Ao contrário, no professor pisano os católicos italianos agora poderiam redescobrir um exemplo de plena e total participação na história com o olhar além da história.
De facto, Toniolo sempre teve grandes e profundos projectos, confrontou-se com a economia, com a sociedade, com as crises temíveis do seu tempo. Poder-se-ia dizer que nenhum aspecto da convivência humana tenha sido descuidado por ele, começando pela exploração dos trabalhadores, dos menores e das mulheres, ao respeito pelo repouso festivo, dos salários ao crédito, da questão educativa à pesquisa científica. Com os seus esforços para a Sociedade Católica Italiana para os Estudos Científicos, nascida em Como em 1899, procurou criar na Itália algo semelhante ao que os católicos alemães, no difícil clima do Kulturkampf, tinham realizado na Alemanha com a Görres-Gesellschaft (1876). Tentou novamente, entre 1904 e 1909, durante o pontificado de Pio X, com uma associação católica internacional para o progresso das ciências que, nos anos difíceis e abrasadores do modernismo e da sua repressão, acabou por morrer antes de ter nascido. Mas todo o trabalho realizado na convicção de que a verdadeira ciência não pode contradizer a fé e a sua profunda racionalidade não se perdeu porque inspirou padre Gemelli ao dar vida à Universidade Católica.
Não foi a condição particular dos católicos italianos, ainda necessariamente estranhos ao compromisso político, que impulsionou Toniolo para a reflexão sobre a economia e a sociedade. Aliás, foi a convicção de que nenhum problema de natureza social ou política pudesse ser enfrentado sem estudar a sua origem e a matriz ideal e cultural. Contra um pragmatismo de breve alcance, contra um empirismo sem perspectivas, o novo beato ensina-nos que todas as questões estão ligadas pela raiz e reduzem-se à visão que uma sociedade elabora do homem e de Deus; e portanto que sobre aquela fronteira, eminentemente cultural, é preciso combater a batalha.
Certamente, Toniolo foi quem mais fez para libertar a cultura católica italiana do provincianismo, resgatando-a da angústia das ressentidas reivindicações pós-unitárias para a elevar ao diálogo com os movimentos católicos europeus, com os seus pensadores e protagonistas; e ao mesmo tempo, expondo-a aos desafios do confronto com as outras visões do mundo, de matriz liberal e socialista. Contudo, analisando bem, a sua lição não é tanto de conteúdo, embora os desenvolvimentos desastrosos de uma economia separada da ética parecem dar razão singularmente a quem, em Dezembro de 1873, pronunciou o seu «discurso» na universidade de Pádua sobre o tema «Do elemento ético como factor intrínseco das leis económicas».
Com a beatificação de Toniolo os católicos italianos, na comunhão dos santos, não obtém só uma ajuda válida e um protector. Têm a ocasião de redescobrir nele um exemplo e um modelo do qual, nas diferentes circunstâncias históricas, seguir o caminho e, sobretudo, o método: a fidelidade à história e à sociedade, para as transcender. Porque ser fiel a Deus é o único modo para ser verdadeiramente fiel ao homem, que no Pai tem a premissa e a protecção da sua dignidade. Toniolo recorda-nos que o amor e a fidelidade à história e à sociedade, numa palavra, ao homem, são mais verdadeiros e eficazes quanto mais nascerem do desejo de Deus, do qual assumem regra e substância, para não fracassar e se precipitar no seu contrário. Como o século XX, depois da morte de Toniolo, eloquentemente demonstrou.
Paolo Vian
Por que confessar-me a um padre? O Papa responde.
ROMA, (ACI/EWTN Noticias) .- O Papa Bento XVI respondeu na prisão de Rebibbia em Roma uma série de perguntas dos presidiários. Respondendo à pergunta de um réu que sofre de AIDS sobre a forma em que algumas pessoas se referem a eles, o Santo Padre disse que também há quem fale mal do Papa, porém isso não deve desanimar-nos mas levar-nos a seguir adiante.
Pergunta 5 – absolvição dos pecados
Chamo-me Gianni, da Seção G8. Santidade, foi-me ensinado que o Senhor vê e lê o nosso interior. Pergunto-me porque a absolvição foi delegada aos padres? Se eu a pedisse de joelhos, sozinho, dentro de um quarto, dirigindo-me ao Senhor, me absolveria? Ou seria uma absolvição com um valor diferente? Qual seria a diferença?
Resposta
Sim: é uma grande e verdadeira questão aquela que me coloca. Eu diria duas coisas. A primeira: naturalmente, se vos coloca de joelhos e com verdadeiro amor a Deus reza para que Ele vos perdoe, Ele perdoa. Sempre foi Doutrina da Igreja que, se alguém, com verdadeiro arrependimento, isto é, não somente para evitar as penas e dificuldades, mas por amor ao bem, por amor a Deus, pede perdão, recebe o perdão de Deus. Essa é a primeira parte. Se eu realmente reconheço que fiz o mal e se, em mim, é reavivado o amor pelo bem, a vontade do bem, o arrependimento de não ter respondido a esse amor, e peço a Deus, que é o Bem, o perdão, Ele o dá. Mas há um segundo elemento: o pecado não é somente algo "pessoal", individual, entre mim e Deus; o pecado tem sempre também uma dimensão social, horizontal. Com o meu pecado pessoal, no entanto, ainda que ninguém saiba sobre ele, danifiquei também a comunhão com a Igreja, suja a comunhão com a Igreja, suja a humanidade. E, por isso, essa dimensão! Social, horizontal do pecado, exige que seja absolvido também no nível da comunidade humana, da comunidade da Igreja, quase corporalmente. Então, essa segunda dimensão do pecado, que não é somente contra Deus, mas concerne também a comunidade, exige o sacramento, que é o grande dom em que posso, na confissão, libertar-me disso e posso realmente receber o perdão no sentido também de uma plena readmissão na comunidade da Igreja viva, do Corpo de Cristo. E assim, nesse sentido, a absolvição requerida da parte do sacerdote, o sacramento, não é uma imposição que limita a bondade de Deus, mas, ao contrário, é uma expressão da bondade de Deus, porque me demonstra que também concretamente, na comunhão da Igreja, recebi o perdão e posso recomeçar de novo. Portanto, diria que é preciso manter presentes estas duas dimensões: a vertical, com Deus, e a horizontal, com a comunidade da Igreja e da humanidade. A absolvição do padre, a absolvição sacramental é necessária para, realmente, resolver-me, absolve-me desta prisão do mal e reintegrar-me na vontade de Deus, na óptica de Deus, completamente na sua Igreja, e dar-me a certeza, também quase corpórea, sacramental: Deus me perdoa, recebe-me na comunidade dos seus filhos. Penso que devemos aprender a compreender o sacramento da penitência neste sentido: a possibilidade de encontrar, quase corporalmente, a bondade do Senhor, a certeza da reconciliação.
Sim: é uma grande e verdadeira questão aquela que me coloca. Eu diria duas coisas. A primeira: naturalmente, se vos coloca de joelhos e com verdadeiro amor a Deus reza para que Ele vos perdoe, Ele perdoa. Sempre foi Doutrina da Igreja que, se alguém, com verdadeiro arrependimento, isto é, não somente para evitar as penas e dificuldades, mas por amor ao bem, por amor a Deus, pede perdão, recebe o perdão de Deus. Essa é a primeira parte. Se eu realmente reconheço que fiz o mal e se, em mim, é reavivado o amor pelo bem, a vontade do bem, o arrependimento de não ter respondido a esse amor, e peço a Deus, que é o Bem, o perdão, Ele o dá. Mas há um segundo elemento: o pecado não é somente algo "pessoal", individual, entre mim e Deus; o pecado tem sempre também uma dimensão social, horizontal. Com o meu pecado pessoal, no entanto, ainda que ninguém saiba sobre ele, danifiquei também a comunhão com a Igreja, suja a comunhão com a Igreja, suja a humanidade. E, por isso, essa dimensão! Social, horizontal do pecado, exige que seja absolvido também no nível da comunidade humana, da comunidade da Igreja, quase corporalmente. Então, essa segunda dimensão do pecado, que não é somente contra Deus, mas concerne também a comunidade, exige o sacramento, que é o grande dom em que posso, na confissão, libertar-me disso e posso realmente receber o perdão no sentido também de uma plena readmissão na comunidade da Igreja viva, do Corpo de Cristo. E assim, nesse sentido, a absolvição requerida da parte do sacerdote, o sacramento, não é uma imposição que limita a bondade de Deus, mas, ao contrário, é uma expressão da bondade de Deus, porque me demonstra que também concretamente, na comunhão da Igreja, recebi o perdão e posso recomeçar de novo. Portanto, diria que é preciso manter presentes estas duas dimensões: a vertical, com Deus, e a horizontal, com a comunidade da Igreja e da humanidade. A absolvição do padre, a absolvição sacramental é necessária para, realmente, resolver-me, absolve-me desta prisão do mal e reintegrar-me na vontade de Deus, na óptica de Deus, completamente na sua Igreja, e dar-me a certeza, também quase corpórea, sacramental: Deus me perdoa, recebe-me na comunidade dos seus filhos. Penso que devemos aprender a compreender o sacramento da penitência neste sentido: a possibilidade de encontrar, quase corporalmente, a bondade do Senhor, a certeza da reconciliação.
PORQUÊ A MISSA TRIDENTINA SOFRE TANTA HOSTILIDADE ?
Mudanças introduzidas por Bento XVI nas celebrações litúrgicas
Todos podemos ver as mudanças introduzidas por Bento XVI nas celebrações litúrgicas. Como podemos sintetizar estas mudanças?
Eu penso que estas mudanças podem ser sintetizadas da seguinte maneira: primeiramente, são mudanças feitas de acordo com a lógica do desenvolvimento em continuidade com o passado. Logo, não lidamos com uma ruptura com o passado e com uma justaposição com os pontificados anteriores. Em segundo lugar, as mudanças introduzidas servem para evocar o verdadeiro espírito da liturgia, como o quis o Concílio Vaticano II. ‘O “sujeito” da beleza intrínseca da liturgia é o próprio Cristo, ressuscitado e glorificado no Espírito Santo, que inclui a Igreja em sua obra'”.
Celebrações voltadas para a cruz, a Sagrada Comunhão recebida diretamente na boca e de joelhos, longos momentos de silêncio e meditação – são estas as mudanças litúrgicas mais visíveis introduzidas por Bento XVI. Infelizmente, várias pessoas não entendem o significado teológico e histórico destas mudanças e, o que é pior, só as enxergam como um “retorno ao passado”. O senhor pode explicar brevemente o significado destas mudanças?
Para contar-lhe a verdade, nosso Departamento tem recebido vários testemunhos de fiéis que receberam favoravelmente as mudanças introduzidas pelo Papa, pois eles as vêem como uma autêntica renovação da liturgia. Como significado de tais mudanças, reflitamos brevemente. Celebrar voltado para a cruz sublinha a correta direção da oração litúrgica, isto é, para Deus; durante as orações os fiéis não devem olhar uns para os outros, mas deveriam dirigir os olhos para o Salvador. Distribuir a Hóstia aos fiéis ajoelhados tenciona valorizar o aspecto de adoração tanto como elemento fundamental da celebração como atitude necessária face ao mistério da presença real de Deus na Eucaristia. Durante a celebração, a oração assume várias formas: palavras, cantos, música, gestos e silêncio. Além disso, os momentos de silêncio nos permitem participar de fato no ato de adoração, e mais, suscita no interior todas as outras formas de oração.
"A oração deve ser para nós como que a respiração da alma e da vida"
Praça de São Pedro
Quarta-feira, 25 de Abril de 2012
Queridos irmãos e irmãs,
A Igreja, desde o início, se deparou com situações imprevistas, às quais procurou dar resposta à luz da fé, guiada pelo Espírito Santo. Assim, com o crescimento do número dos discípulos, os fiéis de língua grega começaram a queixar-se que as suas viúvas estavam sendo deixadas de lado. Os Apóstolos, embora cientes de que a prioridade da sua missão era o anúncio da Palavra de Deus, todavia não ignoravam a necessidade de dar assistência aos fracos, pobres e indefesos, segundo o mandato de Jesus: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Por isso, foram escolhidos sete homens de boa fama para o serviço da caridade, ao passo que os Apóstolos se dedicariam inteiramente à oração e ao serviço da Palavra. Este exemplo nos ensina que, no meio das atividades de cada dia, não devemos perder de vista a prioridade da nossa relação com Deus na oração. Num mundo acostumado a avaliar tudo segundo os critérios da produtividade e eficiência, é importante lembrar que, sem a oração, a nossa atividade se esvazia, convertendo-se em puro ativismo, que nos deixa insatisfeitos. A oração deve ser para nós como que a respiração da alma e da vida.
* * *
Uma saudação cordial aos diversos grupos de brasileiros e demais peregrinos de língua portuguesa, nomeadamente aos fiéis da Diocese de Serrinha acompanhados do seu Bispo, Dom Ottorino Assolari. No meio dos inúmeros afazeres diários, é justamente na oração, alimentada pela Palavra de Deus, que encontrareis novas luzes para vos guiar em cada momento e situação. E que Deus vos abençoe a vós e vossas famíliasCriada comissão para investigar "VaticanLeaks"
O Vaticano foi vítima de vazamento de alguns documentos cuja origem ainda é desconhecida. Entre as vítimas, Bispos e Cardeais ligados à Cúria Romana. O episódio gerou desconforto entre as autoridades da Santa Sé, já que o principal alvo foi a Secretaria de Estado Vaticana.
Ao conhecer o conteúdo dos documentos filtrados, o Diretor da Sala de Imprensa do Vaticano, Padre Federico Lombardi, saiu a desmentir a existência de uma espécie "de Wikileaks" ou "Vatileaks", como o chamam os meios seculares, e denunciou que o objetivo final das filtrações é desacreditar a Igreja Católica.
O Papa dispôs que a comissão fosse presidida pelo Cardeal espanhol Julián Herranz, Presidente Emérito do Pontifício Conselho para a Interpretação dos Textos Legislativos.
Vaticano divulga compromissos do Papa até junho
O Vaticano divulgou agenda das próximas Celebrações do Papa Bento XVI.
Em abril:
- no dia 29, Bento XVI fará ordenações presbiteriais na Basílica Vaticana, a partir das 9h (horário de Roma
Em maio:
- no dia 13, o Santo Padre seguirá em visita pastoral na Itália nas cidades de Arezzo, La Verna e Sansepolcro;
- no dia 27, Domingo de Pentecostes, preside Santa Missa na Capela Papal a partir das 9h30 (horário de Roma)
Em junho:
- no dia 1º, inicia a visita pastoral a Milão.
- dia 3 de junho, Domingo da Santíssima Trindade, preside a Celebração no contexto do Encontro Mundial das Famílias.
- dia 7, na Basílica de São João de Latrão, em Roma, terá lugar a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, Corpus Christi, com procissão à Basílica de Santa Maria Maior e Bênção Eucarística.
- no dia 29, preside a Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, na Capela Papal da Basílica Vaticana, com imposição do Pálio aos novos Arcebispos metropolitanos.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
CARTA DO SANTO PADRE BENTO XVI AOS BISPOS QUE ACOMPANHA O "MOTU PROPRIO" SUMMORUM PONTIFICUM SOBRE O USO DA LITURGIA ROMANA ANTERIOR À REFORMA REALIZADA EM 1970
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Amados Irmãos no Episcopado,
Com grande confiança e esperança, coloco nas vossas mãos de Pastores o texto duma nova Carta Apostólica «Motu Proprio data» sobre o uso da liturgia romana anterior à reforma realizada em 1970. O documento é fruto de longas reflexões, múltiplas consultas e de oração.
Notícias e juízos elaborados sem suficiente informação criaram não pouca confusão. Há reacções muito divergentes entre si que vão de uma entusiasta aceitação até uma férrea oposição a respeito de um projecto cujo conteúdo na realidade não era conhecido.
Contrapunham-se de forma mais directa a este documento dois temores, dos quais me quero ocupar um pouco mais detalhadamente nesta carta.
Em primeiro lugar, há o temor de que seja aqui afectada a autoridade do Concílio Vaticano II e que uma das suas decisões essenciais – a reforma litúrgica – seja posta em dúvida. Tal receio não tem fundamento. A este respeito, é preciso antes de mais afirmar que o Missal publicado por Paulo VI, e reeditado em duas sucessivas edições por João Paulo II, obviamente é e permanece a Forma normal – a Forma ordinária – da Liturgia Eucarística. A última versão do Missale Romanum, anterior ao Concílio, que foi publicada sob a autoridade do Papa João XXIII em 1962 e utilizada durante o Concílio, poderá, por sua vez, ser usada como Forma extraordinária da Celebração Litúrgica. Não é apropriado falar destas duas versões do Missal Romano como se fossem «dois ritos». Trata-se, antes, de um duplo uso do único e mesmo Rito.
Quanto ao uso do Missal de 1962, como Forma extraordinária da Liturgia da Missa, quero chamar a atenção para o facto de que este Missal nunca foi juridicamente ab-rogado e, consequentemente, em princípio sempre continuou permitido. Na altura da introdução do novo Missal, não pareceu necessário emanar normas próprias para um possível uso do Missal anterior. Supôs-se, provavelmente, que se trataria de poucos casos individuais que seriam resolvidos um a um na sua situação concreta. Bem depressa, porém, se constatou que não poucos continuavam fortemente ligados a este uso do Rito Romano que, desde a infância, se lhes tornara familiar. Isto aconteceu sobretudo em países onde o movimento litúrgico tinha dado a muitas pessoas uma formação litúrgica notável e uma profunda e íntima familiaridade com a Forma anterior da Celebração Litúrgica. Todos sabemos que, no movimento guiado pelo Arcebispo Lefebvre, a fidelidade ao Missal antigo apareceu como um sinal distintivo externo; mas as razões da divisão, que então nascia, encontravam-se a maior profundidade. Muitas pessoas, que aceitavam claramente o carácter vinculante do Concílio Vaticano II e que eram fiéis ao Papa e aos Bispos, desejavam contudo reaver também a forma, que lhes era cara, da sagrada Liturgia; isto sucedeu antes de mais porque, em muitos lugares, se celebrava não se atendo de maneira fiel às prescrições do novo Missal, antes consideravam-se como que autorizados ou até obrigados à criatividade, o que levou frequentemente a deformações da Liturgia no limite do suportável. Falo por experiência, porque também eu vivi aquele período com todas as suas expectativas e confusões. E vi como foram profundamente feridas, pelas deformações arbitrárias da Liturgia, pessoas que estavam totalmente radicadas na fé da Igreja.
CARTA APOSTÓLICA EM FORMA DE MOTU PROPRI

BENTO XVI
«Os sumos pontífices até nossos dias se preocuparam constantemente para que a Igreja de Cristo oferecesse à Divina Majestade um culto digno de “louvor e glória de Seu nome” e “do bem de toda sua Santa Igreja”.
«Desde tempo imemoriável, como também para o futuro, é necessário manter o princípio segundo o qual, “cada Igreja particular deve concordar com a Igreja universal, não só quanto à doutrina da fé e aos sinais sacramentais, mas também em respeito aos usos universalmente aceitos da ininterrupta tradição apostólica, que devem ser observados não só para evitar erros, mas também para transmitir a integridade da fé, para que a lei da oração da Igreja corresponda a sua lei de fé”.» (1)
«Entre os pontífices que tiveram essa preocupação ressalta o nome de São Gregório Magno, que fez todo o possível para que aos novos povos da Europa se transmitisse tanto a fé católica como os tesouros do culto e da cultura acumulados pelos romanos nos séculos precedentes. Ordenou que fosse definida e conservada a forma da sagrada Liturgia, relativa tanto ao Sacrifício da Missa como ao Ofício Divino, no modo em que se celebrava na Urbe. Promoveu com a máxima atenção a difusão dos monges e monjas que, agindo segundo a regra de São Bento, sempre junto ao anuncio do Evangelho exemplificaram com sua vida a saudável máxima da Regra: “Nada se antecipe à obra de Deus” (Cap. 43). Dessa forma a Sagrada Liturgia, celebrada segundo o uso romano, enriqueceu não somente a fé e a piedade, mas também a cultura de muitas populações. Consta efectivamente que a liturgia latina da Igreja em suas várias formas, em todos os séculos da era cristã, impulsionou na vida espiritual a numerosos santos e fortaleceu a tantos povos na virtude da religião e fecundou sua piedade”.»
«Muitos outros pontífices romanos, no transcurso dos séculos, mostraram particular solicitude para que a sagrada Liturgia manifestasse da forma mais eficaz esta tarefa: entre eles se destaca São Pio V, que sustentando por grande zelo pastoral, apos a exortação do Concílio de Trento, renovou todo o culto da Igreja, revisou a edição dos livros litúrgicos emendados e “renovados segundo a norma dos Padres” e os deu em uso a Igreja Latina».
Carta de Bento XVI à Conferência Episcopal Alemã a respeito do “Pro Multis”: “O respeito pela palavra de Jesus é a razão para a formulação da oração”.
Excelência! Venerável, caro senhor Arcebispo!
Durante a sua visita de 15 de março de 2012, o senhor me fez saber que, com relação às palavras “pro multis” no canon da Missa, ainda não existe um consenso entre os bispos de língua alemã. Agora parece existir o perigo de que, com o próximo e esperado lançamento do “Gotteslob” ["Livro de Orações"], alguns locais de língua alemã mantenham a tradução “por todos”, ainda que a Conferência dos Bispos tenha concordado em usar o “por muitos”, como é desejo da Santa Sé. Eu tinha lhe prometido que me pronunciaria por escrito sobre esta séria questão para evitar uma divisão no nosso mais íntimo local de oração. A carta, que eu envio através do senhor aos membros da Conferência Episcopal Alemã, também será enviada aos outros bispos de língua alemã.
Permita-me primeiro dizer algumas palavras acerca da origem do problema. Nos anos 60, quando o Missal Romano foi traduzido para o alemão sob a responsabilidade dos bispos, houve um consenso exegético de que as palavras “muitos” e “muito” encontradas em Is. 53, 11 em diante, era uma expressão hebraica que indicaria a comunidade, o “todos”. A palavra “muitos” na narração de Mateus e de Marcos também foi considerada um semitismo a ser traduzido como “todos”. Isto também tinha relação direta com o texto latino que seria traduzido, em que o “pro multis” nas narrações do Evangelho se referiam a Isaías 53 e deviam, portanto, ser traduzido como “por todos”. Este consenso exegético se esfacelou; ele não mais existe. Na tradução alemã da Sagrada Escritura, a narração da Última Ceia diz: “Este é meu Sangue, o Sangue da Aliança, que é derramado por muitos” (Marcos 14, 24, cf. Mateus 26, 28). Isto indica algo muito importante: a exposição do “pro multis” como “por todos” não foi uma tradução pura, senão uma interpretação que foi e continua sendo razoável, mas já é mais que tradução e interpretação.
Esta mistura de tradução e de interpretação pertence, em retrospecto, aos princípios que, imediatamente após o Concílio, nortearam a tradução dos livros litúrgicos para o vernáculo. Entendeu-se quão longe a Bíblia e os textos litúrgicos estavam ausentes da linguagem e do pensamento do homem moderno, de modo que mesmo traduzidos eles permaneceriam largamente incompreensíveis aos participantes do culto divino. Houve um novo empenho para que os textos sagrados fossem revelados, nas traduções, aos participantes da celebração, mas ainda assim eles permaneceriam alijados de seu mundo, e agora sim seriam ainda mais visíveis nesse alijamento. Sentiam-se não somente justificados, mas mesmo obrigados a misturar a interpretação na tradução para que, desse modo, se encurtasse o caminho para o povo, cujas mentes e corações poderiam ser alcançados através dessas palavras.
Até certo ponto, o princípio de uma substantiva, mas não necessariamente justificada tradução literal dos textos-fontes permanece. Quando eu rezo as orações litúrgicas em várias línguas, noto que éfrequentemente difícil encontrar um meio termo entre as várias traduções e que o texto base subjacente muitas vezes permanece visível somente quando visto de longe. Além disso, somam-se as debilitantes banalizações que são verdadeiras perdas. Por causa disso, através dos anos, ficou cada vez mais claro para mim que o princípio da equivalência estrutural, mas não literal, enquanto regra de tradução, tem seus limites. Seguindo tais raciocínios, a instrução de tradução Liturgiam authenticam, publicada pela Congregação para a Doutrina da Fé no dia 28 de março de 2001, mais uma vez colocou a tradução literal em destaque, mas, é claro, sem impor um único vocabulário. A importante idéia que se encontra na base dessa instrução já se encontra expressa na distinção entre tradução e interpretação, como escrevi acima. Isto é necessário tanto para a Palavra das Escrituras quanto para os textos litúrgicos. Por um lado, a Palavra sagrada deveria, se possível, apresentar-se a si mesma, mesmo com a estranheza e perguntas que ela contém em si; por outro lado, à Igreja foi dada a missão de interpretar, dentro dos limites do nosso entendimento, a Boa Nova que o Senhor quis que recebêssemos. Uma tradução empática também não pode substituir a interpretação: faz parte da estrutura da Revelação que a Palavra de Deus seja lida na comunidade interpretativa da Igreja, que a fidelidade e a compreensão sejam combinadas. A Palavra deve existir como ela mesma, em sua própria forma, ainda que estranha; a interpretação deve ser medida pela fidelidade à própria Palavra, mas, ao mesmo tempo, ser acessível ao ouvido moderno.
Neste contexto, a Santa Sé decidiu que na nova tradução do Missal as palavras “pro multis” devem ser traduzidas enquanto tais e não, ao mesmo tempo, serem interpretadas. A simples tradução “por muitos” deve substituir o interpretativo “por todos”. Gostaria de destacar que tanto em Mateus como em Marcos não há artigo, de modo que não é “pelos muitos”, mas “por muitos”. Tendo entendido, como espero, a decisão fundamental sobre a ordenação da tradução e da interpretação, compreendo que isso representeum enorme desafio para todos os que têm a missão de interpretar a Palavra de Deus na Igreja. Sendo que, para os fiéis regulares, isso parecerá, quase inevitavelmente, uma ruptura no coração daquilo que é mais sagrado. Perguntarão: Cristo não morreu por todos? A Igreja mudou seu ensinamento? Isso é possível e permitido? Esta é uma reação contra a herança do Concílio? Todos sabemos, pela experiência dos últimos 50 anos, quão profundamente as mudanças nas formas e textos litúrgicos afetam as pessoas; quanto uma mudança num texto tão central afeta as pessoas. Embora este seja o caso, há muito se defendeu que a tradução de “muitos” fosse precedida por uma profunda catequese sobre a diferença entre tradução e interpretação, uma catequese na qual os bispos devem informar seus padres que, por sua vez, devem explicar de forma clara para os fiéis do que se trata a questão. Esta catequese é um pré-requisito básico antes que a nova tradução entre em vigor. Até onde eu saiba, uma tal catequese ainda não foi dada nas localidades de língua alemã. A intenção da minha carta, caros irmãos, é de pedir urgentemente que uma tal catequese seja estabelecida, para que então seja discutida com os padres e seja imediatamente disponibilizada aos fiéis.
Tal catequese deve primeiramente explicar porque, depois do Concílio, a palavra “muitos” foi traduzida por “todos” no Missal: para claramente expressar a universalidade da salvação desejada por e advinda de Jesus. Isso leva à seguinte pergunta: se Jesus morreu por todos, por que as palavras da Última Ceia dizem “por muitos”? Além disso, Jesus, de acordo com Mateus e Marcos, disse “por muitos”, mas de acordo com Lucas e são Paulo, disse “por vós”. Tal fato estreita ainda mais a questão. Mas, a partir daqui, também podemos chegar a uma solução. Os discípulos sabem que a missão de Jesus os transcende e ao grupo dos apóstolos; que Ele veio para reunir todos os filhos de Deus dispersos (conforme Jo 11, 52). Este “por vós” torna a missão de Jesus bastante concreta para os presentes: eles não são algum elemento anônimo de alguma vasta totalidade, mas todos sabem que o Senhor morreu particularmente por mim, por nós. “Por vós” alcança o passado e o futuro; eu fui nomeado muito pessoalmente; nós, que aqui estamos, somos conhecidos [pessoalmente] por Jesus. Nesse sentido, “por vós” não é uma constrição, mas uma especificação que é válida para cada comunidade que celebra a Eucaristia, que une a si mesma ao amor de Cristo. Nas palavras da consagração, o Canon Romano uniu as duas leituras bíblicas e lê: “por vós e por muitos”. Na reforma litúrgica, esta fórmula foi levada a todas as orações.
Mas, novamente: por que “por muitos”? O Senhor não morreu então por todos? O fato de Jesus Cristo, enquanto Filho de Deus encarnado, ser o Homem para todos os homens, o novo Adão, pertence às certezas básicas da nossa fé. Gostaria de lembrá-los de somente três passagens das Escrituras: Deus deu Seu Filho “por todos nós”, Paulo escreve na Carta aos Romanos (Rom, 8, 32). “Um só morreu por todos”, São Paulo diz na Segunda Carta aos Coríntios, sobre a morte de Jesus (1Cor 5, 14). Jesus “Se deu em resgate por todos”, diz a 1ª Carta a Timóteo (1Tim 2, 6). Mas então podemos nos perguntar novamente: quando tudo isso é tão claro, por que então a Oração Eucarística diz “por muitos”? Bem, a Igreja tomou esta formulação da narrativa da instituição do Novo Testamento. Ela assim o faz por respeito à Palavra de Jesus, para permanecer fiel a Ele também na Palavra. O respeito pela palavra de Jesus é a razão para a formulação da oração. Mas então perguntamos: por que o próprio Jesus falou isso? O verdadeiro motivo para isso é que Jesus, dessa forma, Se revelou como o servo de Deus de Is. 53, Se identificou como a forma que a palavra do profeta esperava. Respeito da Igreja pela Palavra de Jesus, fidelidade a Jesus Palavra das Escrituras: nesta dupla fidelidade se encontra a base sólida para a fórmula “por muitos”. É nesta cadeia de reverente fidelidade que encontramos a tradução literal da Palavra das Escrituras.
Como dissemos anteriormente, o “por vós” na tradição Luca-Paulina não constringe, senão especifica, de modo que podemos afirmar que a dialética de “muitos”- “todos” tem seu próprio significado. “Todos” existe num nível ontológico – o ser e a ação de Jesus inclui toda a humanidade, passada, presente e futura. Mas, de fato, na comunidade concreta daqueles que celebram a Eucaristia, isso envolve somente “muitos”. Deste modo, podemos ver um significado triplo no ordenamento de “muitos” e de “todos”. Em primeiro lugar, deveria significar para nós, que podemos sentar à Sua mesa, surpresa, alegria e gratidão pelo fato d’Ele ter nos chamado, de estarmos com Ele e de podermos conhecê-Lo. “Graças ao Senhor, que por misericórdia me chamou à Sua Igreja …”. Em segundo lugar, é também uma responsabilidade. Como o Senhor alcança os outros – “todos” – a Seu próprio modo permanece um mistério. Mas, sem dúvida, é uma responsabilidade ser chamado para Ele e para Sua mesa, de modo que eu possa ouvir: por vós, por mim Ele sofreu. Os muitos carregam a responsabilidade por todos. A comunidade dos muitos deve ser a luz das velas, a cidade nas montanhas, fermento para todos. É um chamado que se aplica a todos pessoalmente. Os muitos, que somos nós, devem conscientemente praticar sua missão em responsabilidade pela totalidade. Finalmente, podemos adicionar um terceiro aspecto. Na sociedade moderna, temos a impressão que estamos longe de ser “muitos”, senão bem poucos – um pequeno número que continuamente diminui. Mas não – nós somos “muitos”: “Depois disso, eis que vi uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” nos diz o Apocalipse de João (Ap 7, 9). Somos muitos e representamos todos. Dessa maneira ambas as palavras, “muitos” e “todos” devem ficar juntas e se relacionam entre si na responsabilidade e na promessa.
Excelência, amados irmãos bispos! Com o que escrevi acima, desejei indicar o conteúdo básico da catequese que deve preparar, o quanto antes, padres e leigos, para a nova tradução. Espero que tudo isso possa servir para uma celebração mais profunda da Eucaristia e se torne parte de uma grande missão que se nos desvela no “Ano da Fé”. Espero que esta catequese seja logo apresentada para que se torne parte de uma renovação litúrgica pela qual o Concílio trabalhou desde sua primeira sessão.
Com minhas bênçãos Pascais, permaneço no Senhor,
Benedictus PP XVI
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